SHAKIRA: O SONHO QUE AINDA NÃO ACABOU
A Menina de Barranquilla
Por Gilberto García Mercado
Ontem à noite sonhei com a Shakira. Não com a mulher que enche estádios, nem com a artista que aparece nos ecrãs do mundo inteiro, nem com essa mulher que parece ter assinado um pacto secreto com o tempo. Sonhei com a menina de Barranquilla que levava canções na cabeça e uma esperança demasiado grande para a sua idade.
Vi-a a caminhar pelos corredores de emissoras e estúdios, à procura de uma oportunidade. Imaginei-a com os pais atrás, a acompanhá-la de concurso em concurso, a bater a portas, a levar gravações e à espera que alguém ouvisse aquela voz diferente. Desde muito pequena tinha descoberto que a música podia ser uma forma de falar ao mundo. Aos oito anos começou a escrever canções e, por volta dos dez, já participava em concursos de talentos.
—Tinhas medo? —perguntei-lhe naquele sonho.
Ela sorriu.
Talvez sim. Porque também houve rejeições. Até na escola a sua voz provocou comentários pouco encorajadores e não foi aceite inicialmente no coro. Mas aquela menina parecia ter uma capacidade estranha de converter os obstáculos em combustível.
Depois apareceram as emissoras, os palcos pequenos e as portas que pareciam não se querer abrir.
E então apareceu Flash, Édgar García Ochoa, um dos homens que acreditou cedo naquela rapariga e que anos depois contou a sua história em Shakira: Nueva diosa del Rock. A sua recordação faz parte dessa primeira etapa em que muitos começaram a descobrir que por trás daquela jovem havia algo diferente.
Mas também lá estava Ciro Vargas, da Sony Music. Segundo testemunhos publicados pelo El Tiempo e outros meios de comunicação, Vargas chegou a ouvi-la graças a Mónica Ariza e ficou impressionado depois de a ver cantar e dançar. Aquela audição acabou por conduzir Shakira a um contrato discográfico.
Depois veio Magia. Depois Peligro. E o mundo ainda não sabia o que estava para acontecer.
Chegaria Pies descalzos, e com ele uma Shakira distinta. Chegariam ¿Dónde están los ladrones?, Laundry Service, as canções em inglês, os palcos internacionais, os Grammys e uma carreira que acabaria por transformá-la numa das artistas latino-americanas mais reconhecidas do planeta. A Sony Music indica que vendeu mais de 60 milhões de discos e acumulou inúmeros prémios internacionais.
Mas no meu sonho eu continuava a ver a menina.
Talvez porque a fama não consegue apagar completamente os nossos primeiros medos.
Também apareceu o amor.
Primeiro Antonio de la Rúa, com quem manteve uma relação de aproximadamente onze anos. Depois Gerard Piqué, com quem teve os seus filhos Milan e Sasha. A relação terminou em 2022, após mais de uma década.
Hoje, depois dessas histórias, Shakira parece ter aprendido outra maneira de olhar para o amor. Já não necessariamente como promessa de eternidade, mas como experiência, companhia, perda, aprendizagem e também liberdade.
E então compreendi porque é que parece conservar uma espécie de eterna juventude.
Não é apenas o seu rosto. É aquela menina que ainda parece acompanhá-la.
A que escreveu as suas primeiras canções.
A que insistiu quando lhe disseram que não.
A que caminhou por emissoras à procura de uma oportunidade.
A que sonhava ser ouvida.
Talvez essa seja a verdadeira razão da sua juventude: Shakira nunca chegou a abandonar a menina que queria conquistar o mundo com uma canção.
Despertei.
E por uns segundos pareceu-me ouvir uma voz que vinha de muito longe:
—Ainda falta outra canção.
E pensei que talvez tivesse razão.
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